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Nascemos, enquanto humanos, para aprender. Nada, nem um breve respirar, passa destituído de capacidade de ensinamento. Dessa forma, pode-se dizer que a dinâmica da vida na humanidade, em si, elenca uma porção das situações condicionantes já que o processo de cognição é contextual.

Porém, nada é determinado a ponto de haver uma única verdade. Embora haja uma fisiologia específica à disposição das operações mentais humanas, é correto afirmar que a partir de uma mesma coisa, pessoa ou situação, as interpretações, justificativas e reações a ela podem variar. Estilo de vida, convicções, heranças familiares e cármicas, por exemplo, podem influenciar diretamente no processo de conhecer algo. E não existe problema algum a respeito disso. Assim são desenvolvidas as mais diversas relações sujeito-objeto. A disfunção desse sistema nasce quando convicções tornam-se rígidas ao ponto de limitar a fruição das experiências diante dos movimentos da vida.

À medida que olhamos para um objeto, reconhecendo-o, automaticamente, desfiamos uma série de propriedades e funções como próprias da sua natureza. Estabelecendo esse entendimento como verídico, inquestionável e imutável, doutrinamos a relação com base numa convicção aguda. Imagine que um artefato de madeira é produzido a partir do tronco de uma grande árvore. Em que momento esse novo objeto deixa de ser um tronco de madeira? O artesão molda o tronco com maestria e, indubitavelmente, aquilo que era somente algo roliço e pesado, passa a apresentar qualidades de cadeira.

A partir do momento em que nasce o conceito de cadeira, o tronco passa a ser um objeto no qual é possível sentar. Ou com o qual é possível complementar a decoração de um ambiente. Ou, ainda, a partir do qual é possível assumir um lugar de prestígio e distinção num determinado exercício social. São muitas as possibilidades de apresentar, criar ou definir uma relação sujeito-objeto. Porém, em geral e independente do caminho seguido, deixamo-nos numa postura de aficionados por uma ou outra atribuição deliberadamente entregue ao objeto e passamos a vê-lo como algo que está fora. Esquecemo-nos, portanto, a origem das qualidades oferecidas gratuitamente. Desta forma, acreditamos que é a cadeira quem permite sentar, ornar ou distinguir-se e, portanto, entregamos ao objeto a responsabilidade de sujeito.

Assim como fazemos com as cadeiras, fazemos com as pessoas, com as situações da existência, com as memórias e projeções de futuro. E, ainda pior, é comum, na prática, fazermos com que tudo isso ocupe um lugar de protagonismo. A partir dessa inversão de papéis é que nascem a rigidez mental, os desequilíbrios nas relações e a pobreza nas experimentações da vida. É nesse ponto que o processo cognitivo por meio das operações mentais, vivido, no automático, sem a devida atenção ou conhecimento, pode passar a ser um fator de congelamento e paralisia diante da abundante gama de possibilidades de um tipo de vida que é naturalmente nutrida e desenvolvida a partir da constante mudança. Presos nessa teia obscura de distorções, roubamos de nós mesmos o caráter genuíno e precioso das passagens, das transformações e, portanto, do desenvolvimento pleno das nossas capacidades cheias de alma e inteligência.

Cultura, aspirações sociais, influências familiares, estágios naturais da vida, experiências anteriores. Tudo faz parte de um intricado sistema de concepção da realidade e, portanto, exerce influência direta nas decisões tomadas no cotidiano. Sejam a respeito de uma pessoa ou da utilidade e necessidade de um objeto material. E a saída não é negar todo um contexto de vida que se manifesta nas relações das mais diferentes formas. De nada adianta negar a natureza da nossa existência. Aliás, negá-la é criar sofrimento. Por sorte, o remédio para esse sofrimento é potente, farto e acessível.

Aprender a olhar e vivenciar tudo mergulhado na lembrança do que são e como vibram, a cada instante, os elementos dessa rede interativa é a saída. E, claro, esse aprendizado é possível graças às nossas competências de cognição. Isso lembra-nos o quanto tudo é neutro em essência. Nem mais, nem menos, que cadeira ou tronco. Portanto, que sejam cadeira e tronco, mas não com condições exclusivas. Cadeira e tronco na sua totalidade. Quando conseguimos acessar o entendimento dessa neutralidade e, por isso mesmo, incrível vastidão de possibilidades, encontramos o caminho da liberdade.

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