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Acrílica Sobre Tela 35X35cm

Nunca segui fervorosamente uma religião, mas tive formação católica e estudei em colégio de freiras. Achava bonito o terço católico como objeto e admirava quem o rezava. Cresci e conheci outras formas de lembrar o divino. Buda, Ganesha, Yemanjá. O sol, a lua e o mar. Sabedoria, bondade e alegria. Os ventos suaves e seus perfumes tocando o rosto, os raios de luz pelas frestas e as cores do pôr do sol. O cheiro da terra molhada, do café pela manhã e do pão assando. As visitas da minha avó materna, a astúcia da minha irmã e a lealdade da minha mãe. Captei muito cedo a vastidão da espiritualidade, a pluralidade dos atos devocionais e a grandiosidade dos pequenos milagres da vida.

Ainda assim, há conexões que se apresentam mais fortes e profundas. Há pouco tempo, pintei essa tela, Bênçãos da Mãe Maria. Até aqui, foi o trabalho que mais me emocionou pela presença constante de uma energia de proteção e pureza. Durante o feitio dessa pintura, bastante guiada pela própria Maria, conversamos muito. Ela é, também, muito divertida. Quer ser , em outras pinturas, um pouco de todas as mulheres que enobrecem e colorem o Planeta Terra. Ela quer ser, também, um pouco de todos aqueles que têm alma de mulher. Quer tons de pele, cabelos, roupas, tudo diferente! Até piercing e tatuagem. Para Maria, as formas e os nomes pouco importam.

Agora, enquanto escrevo esse texto, ela pede para que nos elevemos transcendendo a ideia de que a matéria é uma verdade definitiva. Ela nos lembra, com muito amor, que a materialidade é uma simples experiência e que uma vida completa é como um abraço que aconchega mas não aperta. É como um perfume que invade mas não afeta. Como luz que elimina completamente a escuridão mas não faz doer a vista.

Mãe Maria quer nos abençoar e pede para que, olhemos em seus olhos, refletidos nessa pintura, por alguns instantes e levando nossas mãos ao coração, fechemos os olhos e sintamos o calor das suas mãos no alto das nossas cabeças. Assim, será trazida a doce recordação da ternura que habita os corações humanos. Amém!

Caso sinta de aprofundar a experiência, tire alguns minutos para se conectar à meditação intuitiva disponível no áudio abaixo.

Meditação para Conexão com a Ternura da Mãe Maria

É linda a jornada humana de descoberta. Com o nascimento, a total entrega ao outro. A dependência do outro para fazer vingar a sobrevivência. Com o desenvolvimento, o constante desejo por uma vivência plena em liberdade de escolha.

Mas o que interessa mesmo é o meio do caminho. Qual conta é capaz de mensurar os aprendizados? Engatinhamos e somos do mundo imediatamente diante de nós. Limpando os joelhos ralados vamos descobrindo uma tal de identidade. O Eu vai brotando, desabrochando e mandando ver pra fazer valer os seus direitos e merecimentos. Dos tantos caminhos possíveis, alguns começam a não fazer sentido e são descartados. O coração tem que falar e ser ouvido. E, assim, a vida vai pulsando mais forte.

Construímos ideias, modos de operar, discursos, atos, laços e histórias; muitas histórias. A tal da identidade até se confunde com tudo isso. E, continuamos. Criamos apego, aversão e prosseguimos gerando e contando histórias. O tal do Eu, algo tão importante (como não?), deve ser visto, ouvido, compreendido, reverenciado. Aos poucos, com alguma boa sorte, sentimos que há mais.

Uma vida orquestrada por uma inteligência divina precisa ser mais do que um emaranhado de linhas de tempo egóicas que se cruzam mas não se conectam. E com essa pulga atrás da orelha, iniciamos o desvendar dos reais significados da vida, do eu, do outro, do tudo junto e misturado e sentimos nos atos, nos laços e nas histórias o amor. Às vezes romântico, bobo e medroso. Outras vezes corajoso, libertador e pacificador. Porém, na maioria das vezes, é uma misturinha mesmo - um tico do que é bobo com uma pitada do que liberta. E, assim, vamos nos desconfundido, e confundindo ao mesmo tempo, a partir de experiências com infinitas possibilidades de blends das (e nas) relações humanas.

Um belo dia, sentimo-nos acordados; percebemo-nos mais parceiros da mente, das emoções e vivendo, enfim, de forma artística, harmônica, descontraída, criativa e abundante em novos e bem-vindos aprendizados. Já sabemos que a energia mais poderosa do planeta se chama Amor e é incondicional. Despertos, seguimos avançando até descobrir que Deus, ou outro nome, não vive em amor, com amor, ou para o amor. Também não faz diferença chamar de Amor como forma de distinção. Definitivamente, Deus não pode ser uma noção de amor.

Toda tese humana carrega em si a sua antítese. A dualidade, inerente ao passeio do ser enquanto humano, não compete a Deus. A experiência em Deus, ou com a Grande Consciência Cósmica, é completamente despida de todo e qualquer abstração social, filosófica, linguística, religiosa ou espiritualista que carrega, naturalmente, em si, a vibração da sua "alma contrária". Deus não é fora, nem é dentro. A Consciência não é adormecida, nem é desperta. Por isso, Deus "apenas" é. A Consciência apenas é. Não é mistério, nem é ciência. É tudo que é. E tanto faz, dá pra dizer que nada é, também. Assim é Deus, um tanto faz tremendo, pois não existe caminho ambíguo.

Do mesmo jeitinho é o Eu Sou. Vibra no tudo e no nada ao mesmo tempo. Nem se alegra, nem se entristece. Transcende qualquer mentalidade. Portanto, não é algo a ser ensinado, argumentado, intelectualizado. É puro sentir; é sentar para sentir - o verdadeiro "ver pra crer". Eu senti, por isso fico atrevida e escrevo sobre o que não se escreve. E é aqui onde encontro a beleza da vida.

Nascemos, enquanto humanos, para aprender. Nada, nem um breve respirar, passa destituído de capacidade de ensinamento. Dessa forma, pode-se dizer que a dinâmica da vida na humanidade, em si, elenca uma porção das situações condicionantes já que o processo de cognição é contextual.

Porém, nada é determinado a ponto de haver uma única verdade. Embora haja uma fisiologia específica à disposição das operações mentais humanas, é correto afirmar que a partir de uma mesma coisa, pessoa ou situação, as interpretações, justificativas e reações a ela podem variar. Estilo de vida, convicções, heranças familiares e cármicas, por exemplo, podem influenciar diretamente no processo de conhecer algo. E não existe problema algum a respeito disso. Assim são desenvolvidas as mais diversas relações sujeito-objeto. A disfunção desse sistema nasce quando convicções tornam-se rígidas ao ponto de limitar a fruição das experiências diante dos movimentos da vida.

À medida que olhamos para um objeto, reconhecendo-o, automaticamente, desfiamos uma série de propriedades e funções como próprias da sua natureza. Estabelecendo esse entendimento como verídico, inquestionável e imutável, doutrinamos a relação com base numa convicção aguda. Imagine que um artefato de madeira é produzido a partir do tronco de uma grande árvore. Em que momento esse novo objeto deixa de ser um tronco de madeira? O artesão molda o tronco com maestria e, indubitavelmente, aquilo que era somente algo roliço e pesado, passa a apresentar qualidades de cadeira.

A partir do momento em que nasce o conceito de cadeira, o tronco passa a ser um objeto no qual é possível sentar. Ou com o qual é possível complementar a decoração de um ambiente. Ou, ainda, a partir do qual é possível assumir um lugar de prestígio e distinção num determinado exercício social. São muitas as possibilidades de apresentar, criar ou definir uma relação sujeito-objeto. Porém, em geral e independente do caminho seguido, deixamo-nos numa postura de aficionados por uma ou outra atribuição deliberadamente entregue ao objeto e passamos a vê-lo como algo que está fora. Esquecemo-nos, portanto, a origem das qualidades oferecidas gratuitamente. Desta forma, acreditamos que é a cadeira quem permite sentar, ornar ou distinguir-se e, portanto, entregamos ao objeto a responsabilidade de sujeito.

Assim como fazemos com as cadeiras, fazemos com as pessoas, com as situações da existência, com as memórias e projeções de futuro. E, ainda pior, é comum, na prática, fazermos com que tudo isso ocupe um lugar de protagonismo. A partir dessa inversão de papéis é que nascem a rigidez mental, os desequilíbrios nas relações e a pobreza nas experimentações da vida. É nesse ponto que o processo cognitivo por meio das operações mentais, vivido, no automático, sem a devida atenção ou conhecimento, pode passar a ser um fator de congelamento e paralisia diante da abundante gama de possibilidades de um tipo de vida que é naturalmente nutrida e desenvolvida a partir da constante mudança. Presos nessa teia obscura de distorções, roubamos de nós mesmos o caráter genuíno e precioso das passagens, das transformações e, portanto, do desenvolvimento pleno das nossas capacidades cheias de alma e inteligência.

Cultura, aspirações sociais, influências familiares, estágios naturais da vida, experiências anteriores. Tudo faz parte de um intricado sistema de concepção da realidade e, portanto, exerce influência direta nas decisões tomadas no cotidiano. Sejam a respeito de uma pessoa ou da utilidade e necessidade de um objeto material. E a saída não é negar todo um contexto de vida que se manifesta nas relações das mais diferentes formas. De nada adianta negar a natureza da nossa existência. Aliás, negá-la é criar sofrimento. Por sorte, o remédio para esse sofrimento é potente, farto e acessível.

Aprender a olhar e vivenciar tudo mergulhado na lembrança do que são e como vibram, a cada instante, os elementos dessa rede interativa é a saída. E, claro, esse aprendizado é possível graças às nossas competências de cognição. Isso lembra-nos o quanto tudo é neutro em essência. Nem mais, nem menos, que cadeira ou tronco. Portanto, que sejam cadeira e tronco, mas não com condições exclusivas. Cadeira e tronco na sua totalidade. Quando conseguimos acessar o entendimento dessa neutralidade e, por isso mesmo, incrível vastidão de possibilidades, encontramos o caminho da liberdade.

Imagine o que seria do ecossistema se as abelhas, por exemplo, escolhessem a quem oferecer a sua contribuição para a polinização, movimento fecundo da vida. O que seria da biodiversidade se o ar e o seu ventar escolhessem, a dedo, por onde passar? Imagine que esses tipos de escolhas fossem feitas a partir de um nível especial de intelecto que permitisse a formação de justificativas e as mais diversas formas de demostração no intuito de validar argumentos.

É a sobrevivência dos meus, hoje. Talvez o acúmulo para a sobrevivência do amanhã. Excesso para a sobrevivência do quem sabe um dia se precisar. Assim, voariam menos as abelhas, ventariam menos os ventos. É o suficiente. Quem sabe até voar e ventar já nem fossem mais atividades necessárias. Ou voariam mais as abelhas e ventariam mais os ventos. Vai que falta, né? Melhor prevenir que remediar. Então, voo e vento, logo existo, e parar, nem pensar! Quem sabe até voar e ventar cada vez mais rápido.

De um lado, abelhas e ventos que se encolhem. Do outro, abelhas e ventos que fazem de tudo para se esticar. De ambos os lados, de todos os modos, deturpação, violência. Sabotagem. Criações e fortalecimento do antinatural. Aí, o tal do intelecto diz: mas eu tô só fazendo o meu; faz o teu, bença, que ninguém te chamou pra conversa! Mas repare que exite, nesse “fazendo o meu”, uma consequência que se reverbera em cadeia. No caso das abelhas e dos ventos, menos produção, menos diversidade, menos vida, mais desequilíbrio ou mais produção, mais acúmulo, mais desequilíbrio, menos vida.

É por isso que cuidar apenas do que é seu, independente da forma e do argumento, é uma profunda ilusão. Claro está que é essencial cuidar do seu, da sua. Seu corpo, sua mente, seu filho, sua filha, seu cabelo, sua barriga, seu trabalho, sua vida, etc. Mas restringir a percepção e o entendimento acerca desse ciclo dinâmico de fecundidade e prosperidade que envolve, além, dos produtos e os seus usufrutos, os talentos e as criatividades, calculando movimentos para mais ou para menos é como fugir do tema numa redação.

Abelha voa e o que o vento faz é ventar. Voar e ventar são, em si, vigor e sustento. São, também, produtores de vida e mantimento. São meio e são fins ao mesmo tempo. Movimentar-se na sua capacidade plena e no seu ritmo próprio são um respeito à vida e um cultivo à saúde de todo um sistema cheio de alma. Aceitar-se como receptor e doador de vida o tempo inteiro é uma benção para a liberdade. Cuidar-se e cuidar ou cuidar-se para cuidar, tanto faz. Porque é isso tudo junto e misturado o tempo todo.

O Amor é rico, abundante, potente e não se limita a barreiras irreais construídas em argumentos de raça, cor, gênero, afinidades, habilidades. Ou mesmo parentesco. O Amor não liga pra esse negócio de sobrenome, número de CPF e nacionalidade. Essa coisa de cuidar só do que é (m)EU ou cuidar dos (m)EU(s) não é com o A M O R, assim, bem grandão. O Amor não faz distinção de você e/ou eu. O Amor ama. Esse é o ponto.